30 agosto 2009

Neguinha

(Pablo Martins e Roberto Lacaze)

Quando eu chegar de longe
Cansado de caminhar
Com dedos de borracha
Escravos de trabalhar

Ou se eu chegar de lado
Confuso no caminhar
Com dedos de cachaça
Senhores de batucar

Neguinha, vê se entende
Eu quero mais é sumir daqui
Sumir da dor, sumir do não
Deixar nem cor nem coração

Quando eu pisar na bola
Cansado de não jogar
Serei Mané Garrincha
Com fome de seleção

Ou se eu chover na terra
Doente de não chorar
Serei Luiz Gonzaga
Com sede de alazão

Neguinha, vem vambora
Já não há mais o que esperar
Vem dar no pé, vem dar a mão
Deixar nem luz nem ilusão

29 agosto 2009

E a gente

(Pablo Martins e Roberto Lacaze)

Mas era uma cidadezinha assim sozinha e tal
E aquela pobreza uma tristeza sempre igual
Vez em quando
Aquela dona entrava chorando
Pelos bordéis, na catedral, em pleno camarim
E lá um cantador cantando a dor que não tem fim
E não tem fim e não tem cor
Mas mesmo assim terá o sabor
Daquela velha solidão
Feita de samba e oração
E aquela gente novamente na canção

Pois era uma gurizadinha assim magrinha e tal
E aquela poesia uma alegria sempre igual
Vez em quando
Aquele cara saía sangrando
Pelos quartéis, no futebol, em pleno botequim
E lá um impostor impondo a dor que não tem fim
E não tem fim, não tem valor
Mas mesmo assim terá o amor
Da nossa velha solidão
Do nosso samba feito a mão
E a nossa gente eternamente na canção

A Marcha dos Fulanos

(Pablo Martins e Roberto Lacaze)

Eu, fulano de tal, nascido assim qual erva ruim
Filho do carnaval, batizado a sal e tamborim
Trago as solas do pé, os calos da mão e algum tostão
Pra fazer-te uma fé, comprar-te um amor de Zé-joão

E quando o trem passava varrendo a estação
E aquela moça entrava no meu macacão
Pelo vão

Ai, se o dia acabar
Quem vai me pedir perdão
Vendo o chão que eu pisei
E as marcas no coração

Eu, fulana de tal, carpida assim qual seca sem fim
Embrulhada em jornal, batucada a pau e bandolim
Trago os pregos do pé, as pregas da mão e algum vintém
Pra servir-te um rapé, pagar-te um amor de Zé-ninguém

E quando o trem levava tanta gente só
E aquele moço entrava no meu guarda pó
Pelo nó

Ai, se a noite acabar
Quem vai me pegar na mão
Vendo o pão que amassei
E as manchas no coração

Ai, se tudo acabar
Quem vai nos matar de rir
Vendo a dor nos juntar
E a vida nos redimir

O carnaval e as coisas

(Pablo Martins)

Um pivete apanha o som
Pro turista cochilar
Pro cientista investigar
E explicar-nos o que é bom
É pro discurso estar no tom
E o modelo desfilar
É pro estudante analisar
Que o pivete apanha o som

Um malandro apaga a fé
Pro devoto obedecer
Pro estado acumular poder
E o povo ter samba no pé
É pro povo ter samba no pé
Pro índio aprender inglês
Pra segurança do burguês
Que um malandro apaga a fé

Elas e suas mazelas
Eles e os berloques deles
Ossos com os seus ofícios
Nossos ócios nossos vícios
"isso mesmo é que há de haver mais compaixão"

Há tanta graça, tanta preguiça
São vastas as solidões
Tanta tortura, tantos os tortos
Há tanta ternura
E é tudo música popular

Uma maluca arromba a poesia
Pro capital vender filosofia
Pro samba refutar a teoria
Pro tempo dispensar o ditador
Pra banda cantar coisas de amor
Pro bom entendedor buarquear
É pro modelo desabar
Que um mameluco arromba a poesia

Quem cantará o que a história traduz
Quando estivermos nus pra saber
Quem saberá ler as linhas das mãos
Quando estivermos sãos pra esquecer
Há tanta praga, tanta alegria
São breves as solidões
Tanta saudade, tantos temores
São tantos amores
E é tudo música popular
É tanta pressa, tanta bagunça
É tanta conversa e tanto silêncio

Em Cena

(Roberto Lacaze)

Ando só
Procurando por algum norte
Longe daqui
Conto com minha sorte
E o coração

Olha só
E se for um caminho que me entorte
Quero seguir
Não tenho medo da morte
Que ilusão

Caí, levantei e se me cortei não vi o sangue
Sei lá se um dia eu vou pro céu
Espero que você não se chateie e não se importe
Mas eu vou pois eu quero outro papel
Outro papel

Tento pôr
Um pouco de encanto no que sinto
E no que eu vi
Conto coisas mais belas
Que eu quis viver

Sigo só
Procurando alguém que se desconserte
Quando eu sair
Ventos que sopram mais forte
Aonde ir?

Caí, levantei e se me cortei não vi o sangue
Sei lá se um dia eu vou pro céu
Espero que você não se chateie e não se importe
Mas eu vou pois eu quero outro papel
Outro papel

21 agosto 2009

Os Anos Zero

(Paulo Pappen)

O Século 21 é o irmão mais novo do Século XX. O Século 21 tem apenas 9 anos, e está sozinho no tempo que começou com ele. Foi há apenas 9 anos que Deus zerou o cronômetro e disse “Já”, dando início a mais uma corrida de 100 anos.
O Século 21, diria o pastor da minha igreja, o Século 21 somos nós.
Uma criança que recém começou a acreditar nos adultos, e que recém começou a perder palavras. Nosso modelo ainda é o Século XX, o mano mais velho, herói revolucionário, que cumpriu seu destino e não está mais entre nós. Além disso, perdemos o nosso pai, o Primeiro Milênio, que também morreu no momento em que nascemos.
O fantasma do mano Século XX ainda nos assombra.
“Não precisa ter medo”, ele diz. “Não precisa te sentir culpado pela minha morte. Nem pela do pai. Te preocupa com a tua”
Eu faço de conta que não é comigo e ele continua falando:
“A gente só precisa abrir a cabeça e escutar o que a mãe diz”
Eu gosto desse conselho e espero que o fantasma continue, mas ele some e eu fico aqui viajando.
A vida é uma mãe eterna que fala por todos os poros. A vida é mãe de todos, inclusive de Deus, seu filho mais velho, e também o mais puxa saco. Deus resolveu escrever um romance infinito em homenagem à mamãe, e nos botou todos como personagens. Ele na verdade está escrevendo um livro sobre si mesmo, mas ele é tão bom escritor (sou obrigado a reconhecer) que ele é o único personagem que não aparece. Só aparece através dos outros, quando alguém fala nele, como eu estou fazendo agora.
A vida chega pra nós e diz:
“Não dá bola pro teu irmão, mas presta atenção no que ele fala. O espelho é um falso conselheiro, mas o conselheiro é um falso espelho”
Eu ouço essas coisas e não entendo. Fico por aí vivendo, contando os dias pro pagamento. Aí eu pago as contas, bebo, penso que sou um escravo e boto a culpa nos outros.
A culpa é uma bosta. Uma rua de bosta por onde todo mundo anda. Alguns tem sapatos e conseguem disfarçar a porcaria, mas outros andam descalços e a merda da culpa já faz parte da pele desse pessoal. Essa rua é feita também por outro tipo de merda, o medo. Ninguém sabe onde a rua vai dar, e a caminhada não é fácil pra ninguém, mas a gente continua. Sempre que possível, eu faço uma cara cínica e venho escrever sobre o infinito.
Todo tempo contém todos os tempos, digo eu, no dia 9 do 9 do 9. Sempre que abro os olhos eu vejo a fila de tempos fantasmas crescer como uma onda gigante. Sinto que sou parte da onda e relaxo curtindo a maresia.
O futuro não é novidade. A gente sabe de tudo, mas em vez de fazer do mundo um lugar melhor, a gente vai cagar e andar pros colegas de rebanho. É o nosso jeito. O teatro automático, a coca cola e o trânsito. Da modernidade ninguém passa.
O novo tá esgotado. Nosso negócio é reciclar. Refazer os limites da mesma coisa.
Os anos 2000 são 3 zeros e um 2 recém nascido do lado de um cadáver, um segundo tempo absurdo num jogo que recém começou, um século que ainda não entendeu que não adianta saber de tudo, se não se sabe do nada.
Mas eu preciso dizer, antes que seja mais tarde, que não acredito no que eu digo, o que é bastante característico do tempo em que eu vivo. Eu não sou autor de nenhuma das frases que eu escrevo. Eu não sei se é possível escrever uma frase inédita, mas sei que é inútil. Seria apenas mais um cuspe no oceano.
Quer dizer que acabou. E é confortável pensar que acabou. É suficiente fazer o de sempre, até porque só existe o ar estritamente necessário pra continuar.

Palimpsesto

(Pablo Martins)

Arte longa
Vida breve
Escravo é você e você...

Não Quero Falar Demais

(Roberto Lacaze)

É Carnaval minha querida
Quero vestir a fantasia
Cicatrizar minha ferida
Vou esquecer a despedida

Tamanha desilusão
Não vai secar meu coração
Não vou mais falar da vida
Não quero falar demais

É Carnaval, não tem partida
Quero brincar na avenida
Eu vou brindar a alegria
Pra esquecer da quarta-feira

Nenhuma desilusão
Jamais vai secar meu coração
Não vou mais falar da vida
Não quero falar demais

Paz, saúde, samba e amor
É tudo que lhe peço
Meu Senhor

Não vou mais falar da vida
Não quero falar demais

Mande Notícias

(Pablo Martins)

Mande notícias do estrangeiro
Cartões postais, qualquer dinheiro
Mais um abraço forte
Que é pra dar certo, que é pra dar sorte
Mande as manchetes e as utopias
Versos manchados e fotografias
Uma saudade antiga
Pra que isso acabe e a gente prossiga

Quem vem lá, não sei não
Se é sul, se sertão
Quem vem na multidão
É poeta, é peão

Se sou eu farta do amor
Ou nossos filhos ao mar
Se vem chorar um cantor
Se um salvador vem sambar

Mande os pedaços do mundo inteiro
A nave na lua, o navio negreiro
Os gritos do ocidente
E algum silêncio que nos oriente
Fale do medo e das ruas fechadas
Traga a história e os camaradas
Um canto pra despedida
Pra ter coragem, pra ter fé na vida

Quem vem lá, não sei não
Se é norte ou nação
Quem vem na multidão
É Joana, é João
Quem vem lá, sei não
Vem meu pai, meu irmão
Quem vem na multidão
É baiana, é baião

Se sou eu feita do amor
São nossos homens ao mar
Valha-nos nosso senhor
Se um samba vem pra morar

João Ninguém

(Roberto Lacaze)

Segue
Vai apressado pro trabalho
Deixa
O seu suor no assoalho
Espera
Pelo aumento do salário
Pensa
No filho novo que está pra nascer no mês que vem

E pra enganar o coração
Enquanto espera inerte pelo trem
Tenta lembrar o velho samba que tocava por aí

E a vida
A gente vai levando
A gente vai levando

Sabe
Que será mais um João Ninguém
Olha
Será mais um João Ninguém?

E pra enganar o coração
Enquanto espera inerte pelo trem
Tenta lembrar o velho samba que tocava por aí

E a vida
A gente vai levando
A gente vai levando

18 agosto 2009

Oca das Letras

Na edição de Agosto de 2009 (Ano I - Nº4) da revista online Oca das Letras saiu uma matéria sobre a Sociedade Mambembe.

Para ver a matéria:
Oca das Letras - Florescência: Sociedade Mambembe


Para ver o site inteiro:
Oca das Letras

Samba do Fim

(Roberto Lacaze)

É bom poder estar na dança
Até o sol raiar pra mim
A noite já não é mais criança
E o samba vai chegando ao fim

Suave é o corpo que balança
Ninguém pode viver por mim
Não chore que a noite vai embora
Você pode sofrer assim

Posso até morrer
Se o sol nascer
E o samba terminar enfim

O povo foi embora já é hora
A festa já chegou ao fim
Ninguém pode viver só de memória
Ninguém vai ser feliz assim

Posso até morrer
Mas não vou me iludir
Ninguém pode sambar por mim

Porém sei que a tristeza também tem fim
E a alegria vai voltar assim
Que eu ver sair toda gente nas ruas
Irei sambar até o fim

Posso até morrer
Se o sol nascer
E o samba terminar enfim