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04 setembro 2009

O Aquário

(Paulo Pappen)

daqui eu vejo os prédios de frente pro rio
mas não vejo o rio
vejo também os prédios que apontam o céu
mas não vejo o céu
eu sei que o rio vai pro mar
mas não sei onde o mar vai
sei também que o céu pinta o mar de azul
ou de cinza
mas não sei se não é o mar que dá cor ao céu
assim como o sol dá cor à mulher
e a mulher dá cor ao homem

o rio tem ilhas como o prédio tem salas
mas as ilhas são barquinhos
encalhados pelo tempo
enquanto as salas são gavetas
num armário reciclável
e quando o rio crescer e inchar
como alguém com problema de rim
o prédio vai virar ilha
e as ilhas vão ser Titanics
cidades onde os peixes brincam de gente

aí o rio vai juntar com o mar
e o sal vai sair na torneira
as janelas de frente pro rio
vão virar escotilhas
e bêbado de esgoto e óleo
o riomar vai entrar em coma

a polícia vai ser chamada
e a ambulância e a política
e a professora de biologia
e o engenheiro da história pública
e todos vão poder dizer
que era de se esperar
que até a Bíblia já previa
e que finalmente
entramos na Era de Aquário

31 agosto 2009

A Organização Mundial da Vida informa

(Paulo Pappen)

A Organização Mundial da Vida informa:

O trabalho escravo passou a se chamar apenas trabalho. Assim, os escravos deixaram de se chamar escravos, e devem ser mencionados como trabalhadores, funcionários ou colaboradores. Consequentemente, acaba-se também com a idéia de liberdade, que deixa de fazer sentido a partir do momento em que todos são livres. A antiga luta pela liberdade, então, deve ser substituída pela luta pela paz.

As pessoas querem paz, mas acabam ficando livres. E quando querem ser livres, acabam encontrando a paz. A paz, portanto, é inimiga da liberdade. Inimigos são aqueles que brigam pelo mesmo lugar, e a paz é não brigar. Então é a liberdade que impede que a paz exista, porque a liberdade é justiça, e a justiça é luta, briga, pedrada no gigante.

O gigante é a sociedade. A sociedade é cada vez maior, e assim vai aumentando a sombra do gigante. A sombra é a paz do verão. O sol é a liberdade do inverno.

Isso tudo soa desconexo porque é uma tentativa de cruzar linhas paralelas. Até agora, a paz e a liberdade demonstraram ser as mais belas linhas paralelas do destino humano. Não se exclui, porém, a possibilidade de que elas não sejam paralelas e, portanto, um dia se encontrem num x.

Essa possibilidade é alimentada pela esperança, a linha que ziguezaga entre a paz e a liberdade. Nossa linguagem é baseada na diplomacia exercida pela esperança, e é por isso que estamos o tempo todo nos contradizendo. Uma hora queremos paz, e na outra liberdade, mas no fundo só estamos fazendo propaganda pra esperança. A esperança é quando estamos acordados, pensando e falando, o que não traz nenhuma satisfação vital.

Só dormir é satisfação garantida, porque o sono junta a liberdade e a paz. As pessoas morrem de fome, de sede, de frio, de medo e de solidão, mas nunca morrem de sono. É assim que se conseguiu chegar ao século 21: permitindo minimamente o sono.

Permitir é uma palavra ligada à liberdade, de onde se presume que, no fundo, a luta é pela liberdade. Isso porque a liberdade conduz à paz, e a paz não conduz à liberdade.

Mas se são linhas paralelas, como pode uma nos levar à outra?

Calma. Aqui entra outra questão interessante: as linhas são paralelas, não são iguais. A liberdade acredita numa paz vinda com a luta e o movimento, mas a paz não reconhece nenhuma liberdade fora dos seus domínios.

Porque a paz é disciplina, é prever o que pode acontecer e acreditar nessa previsão. E a liberdade é improviso, uma reação diante da reação do outro. Essa é a tendência natural do ser vivo: agir, reagir, se mexer. O pensamento (acreditar, sonhar, falar) é uma característica do animal humano, e portanto lutar pela paz faz sentido apenas para a humanidade. A liberdade é uma luta comum a todos os animais e é por isso que é mais simples. E por ser mais simples, é mais satisfatória.

Mas satisfação não é liberdade e paz ao mesmo tempo?

Exatamente. É por isso que dormir é satisfação garantida: porque se dorme mesmo sem paz, mesmo sem liberdade.

É por isso também que a morte é muitas vezes referida como um sono, o sono, o descanso justo.


A Organização Mundial da Vida informa também que:

Da mesma maneira que se acabou com a escravidão pra se acabar com a liberdade, acabou-se com a censura pra se acabar com a subversão. Quer dizer, oficialmente não faz sentido existirem subversivos, já que não existe uma ordem a ser subvertida. Mas só foi possível acabar com a censura e com a escravidão porque as pessoas aprenderam a se autocensurar, e já estavam com a escravidão na alma.

Quanto ao futuro, pouco se pode saber, mas o fato é que demos aspirina e coca-cola pra todo mundo, e a tendência é que a gente continue zumbizando por aí.

30 agosto 2009

Musificação

(Roberto Lacaze)

Respiro música
Música é vida

Toco a vida
Vida é música

21 agosto 2009

Os Anos Zero

(Paulo Pappen)

O Século 21 é o irmão mais novo do Século XX. O Século 21 tem apenas 9 anos, e está sozinho no tempo que começou com ele. Foi há apenas 9 anos que Deus zerou o cronômetro e disse “Já”, dando início a mais uma corrida de 100 anos.
O Século 21, diria o pastor da minha igreja, o Século 21 somos nós.
Uma criança que recém começou a acreditar nos adultos, e que recém começou a perder palavras. Nosso modelo ainda é o Século XX, o mano mais velho, herói revolucionário, que cumpriu seu destino e não está mais entre nós. Além disso, perdemos o nosso pai, o Primeiro Milênio, que também morreu no momento em que nascemos.
O fantasma do mano Século XX ainda nos assombra.
“Não precisa ter medo”, ele diz. “Não precisa te sentir culpado pela minha morte. Nem pela do pai. Te preocupa com a tua”
Eu faço de conta que não é comigo e ele continua falando:
“A gente só precisa abrir a cabeça e escutar o que a mãe diz”
Eu gosto desse conselho e espero que o fantasma continue, mas ele some e eu fico aqui viajando.
A vida é uma mãe eterna que fala por todos os poros. A vida é mãe de todos, inclusive de Deus, seu filho mais velho, e também o mais puxa saco. Deus resolveu escrever um romance infinito em homenagem à mamãe, e nos botou todos como personagens. Ele na verdade está escrevendo um livro sobre si mesmo, mas ele é tão bom escritor (sou obrigado a reconhecer) que ele é o único personagem que não aparece. Só aparece através dos outros, quando alguém fala nele, como eu estou fazendo agora.
A vida chega pra nós e diz:
“Não dá bola pro teu irmão, mas presta atenção no que ele fala. O espelho é um falso conselheiro, mas o conselheiro é um falso espelho”
Eu ouço essas coisas e não entendo. Fico por aí vivendo, contando os dias pro pagamento. Aí eu pago as contas, bebo, penso que sou um escravo e boto a culpa nos outros.
A culpa é uma bosta. Uma rua de bosta por onde todo mundo anda. Alguns tem sapatos e conseguem disfarçar a porcaria, mas outros andam descalços e a merda da culpa já faz parte da pele desse pessoal. Essa rua é feita também por outro tipo de merda, o medo. Ninguém sabe onde a rua vai dar, e a caminhada não é fácil pra ninguém, mas a gente continua. Sempre que possível, eu faço uma cara cínica e venho escrever sobre o infinito.
Todo tempo contém todos os tempos, digo eu, no dia 9 do 9 do 9. Sempre que abro os olhos eu vejo a fila de tempos fantasmas crescer como uma onda gigante. Sinto que sou parte da onda e relaxo curtindo a maresia.
O futuro não é novidade. A gente sabe de tudo, mas em vez de fazer do mundo um lugar melhor, a gente vai cagar e andar pros colegas de rebanho. É o nosso jeito. O teatro automático, a coca cola e o trânsito. Da modernidade ninguém passa.
O novo tá esgotado. Nosso negócio é reciclar. Refazer os limites da mesma coisa.
Os anos 2000 são 3 zeros e um 2 recém nascido do lado de um cadáver, um segundo tempo absurdo num jogo que recém começou, um século que ainda não entendeu que não adianta saber de tudo, se não se sabe do nada.
Mas eu preciso dizer, antes que seja mais tarde, que não acredito no que eu digo, o que é bastante característico do tempo em que eu vivo. Eu não sou autor de nenhuma das frases que eu escrevo. Eu não sei se é possível escrever uma frase inédita, mas sei que é inútil. Seria apenas mais um cuspe no oceano.
Quer dizer que acabou. E é confortável pensar que acabou. É suficiente fazer o de sempre, até porque só existe o ar estritamente necessário pra continuar.